Virei fã.
Fim.
(Imagine tocando aquela música “Come on Give It to Me” do Arnold para memes de fim de filme).
Brincadeiras à parte, inevitavelmente, eu conheci Harry Potter através dos filmes. Quando o primeiro filme estreou, eu tinha 1 ano. Quando o último chegou aos cinemas, eu tinha 11. Meu irmão, 9 e 19, respectivamente. Lembro da febre do lançamento do último filme: a movimentação, o cinema lotado, meu irmão assistindo… mas, de alguma forma, eu não quis ver. Não fui fisgada, não me interessei. Além disso, eu sabia muito pouco sobre a saga: só que existiam bruxos e casas.
Acredito que houve três motivos principais para eu não ter me interessado:
- Eu não tinha memória dos filmes anteriores, apenas do último. E pelo enredo isolado dele eu não conseguia pegar o contexto da obra nem criar conexão.
- Impossível ficar mais de duas horas sentada para assistir a um filme aos 11 anos.
- E o mais profundo (talvez você, leitor assíduo, me entenda): aos 11 anos, conheci a saga Percy Jackson — também por causa do meu irmão. Ele e minha mãe sempre gostaram de filmes e, naquela época, comprávamos muitos DVDs. Um dia, ele comprou o filme de Percy Jackson e o Ladrão de Raios e eu fiquei simplesmente obcecada. A partir daí, minha adolescência girou em torno de todos os livros, teorias e bastidores da obra e do autor.
Ah, mas o que isso tem a ver com Harry Potter? Como uma adolescente leitora dependente dos pais, toda oportunidade de ganhar um livro era dedicada a Percy Jackson. Imagino eu que, assim como você, que é fã de Harry Potter desde cedo, toda chance de ganhar presente provavelmente era dedicada a esse universo.
Fato é que muito tempo se passou. Até que, em 2023, uma pessoa conhecida, muito fã da saga, me sugeriu fazer o teste oficial para descobrir em qual casa eu me encaixava. Fiz sem entender algo e deu Grifinória. Fiz de novo: Grifinória. Mais uma vez: Grifinória. Ela esperava Corvinal. Mas como eu disse anteriormente, eu não entendia alguma coisa sequer. Não fazia ideia do que ser Grifinória ou Corvinal significava. Não tive como manipular o teste, apenas respondi com espontaneidade. E ali, algo despertou minha curiosidade.
Decidi, então, assistir aos filmes. Maratonei todos. Comecei a entender melhor a história e os personagens, mas não me apaixonei — exceto, talvez, pelo Sirius. Senti uma leve vontade de ler os livros, mas nunca procurei, imaginando que seriam muito parecidos com os filmes. E assim a vida seguiu.
Contudo, na última semana, de bobeira no meu Kindle, apareceu a indicação de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Costumo ler livros leves antes de dormir, então pensei: “por que não?”.
Ledo engano.
Nunca vi uma leitura tão envolvente e bem descrita como a de Harry Potter. É fluida, fácil de visualizar e impossível de não se manter imerso. A construção de cada personagem, superior aos filmes, me fez querer absorver cada detalhe, cada diálogo que não aparece na tela.
E então, no fim do primeiro capítulo, aconteceu algo que não esperava:
Mas ele continuou a dormir, sem saber que era especial… ele não podia saber que, nesse mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo o país que erguiam os copos e diziam com vozes abafadas: ‘A Harry Potter: o menino que sobreviveu!
Foi exatamente aqui que a química do meu cérebro foi alterada e eu me apaixonei. Acho que, talvez, porque cada um de nós é sobrevivente do Voldemort de nossa própria mente.
Diferenças que mais me marcaram entre livros e filmes
1. A verdadeira personalidade de Harry
Na minha opinião, o Harry interpretado por Daniel Radcliffe é um ícone, mas agora tenho a sensação de que ele não imprime a real personalidade do personagem. Nos filmes, ele é um personagem sempre de luto e cansado. Corajoso, mas quase sempre em um tom preto e branco. Agora, o Harry dos livros é um garoto indomável, afiado, impulsivo e ousado. É sim um personagem enlutado, inclusive, a sensibilidade de todo o primeiro livro permeia por essa camada (ainda não posso dizer pelos próximos), mas é também um personagem que tem vitalidade e seus momentos de travessuras.
2. A afinidade entre Hagrid e Harry
No filme, parece uma amizade por protagonismo. Mas, no livro, Hagrid, muito mais sensível do que nos filmes, transferiu para Harry o afeto que tinha por Tiago e Lilian. E Harry se conectou a Hagrid porque, além de ter sido seu primeiro amigo naquele caos que era viver com os Dursley, estar perto dele era como estar perto de seus pais. Conhecer Hagrid era também conhecer um pouco de seus pais.
Na reta final de A Pedra Filosofal, quando Hagrid visita Harry na enfermaria e o presenteia com um livro cheio de fotografias de seus pais é uma forma de dizer “eu te amo Harry, porque amei seus pais e amar você é como mantê-los vivos” e o silêncio de Harry foi como “eu te amo Hagrid, porque você amou meus pais e amar você é poder amá-los também”. Harry se emociona, Hagrid se emociona e eu me emociono.
3. A amizade do trio
Nos filmes, surge quase por acaso. No livro, é construída aos tropeços. Primeiro eles se odeiam à primeira vista. A impaciência da Hermione, as respostas afiadas do Rony e a petulância do Harry. Acho que Hermione queria ser um pouco como eles e eles um pouco como ela. Depois, nada melhor que ter um inimigo em comum pra poder se amar. Afinal, “há coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro”.
Me envolveu emocionalmente o jeito que a amizade entre eles se constroem de forma tão leal. Nos inúmeros momentos em que Harry fica em destaque, Rony é o primeiro a aplaudir, como, por exemplo, quando ele entrou para o time de Quadribol mesmo estando no primeiro ano. Nada da excepcionalidade de Harry é diminuída por Rony. Muito pelo contrário, a conquista de um é literalmente a conquista do outro. No geral, a dinâmica dos três é saber reconhecer e admirar a qualidade entre eles e acho que justamente isso que os fazem fortes.
A captura da pedra filosofal é praticamente um pacto de sangue: “Voldemort matou meus pais, estão lembrados?”. A maestria de Rony no xadrez, a inteligência lógica de Hermione, a liderança genuína de Harry. Não importa se eles estão indo encarar à morte, eles vão juntos e vão lutar até a última gota porque seus corações são indômitos.
4. Malfoy
Sem comentários. Insuportável, mesmo. Com todo respeito!
5. Voldemort
Se você é fã de Harry Potter e está lendo esse texto, talvez agora você fique bastante chateado comigo. Mas quando terminei de maratonar os filmes, lá em 2023, um dos personagens que eu mais havia gostado era o Voldemort, porque ele trazia o conflito para a trama e, como o filme é longo, eu sentia necessidade dessa ação.
Já no livro, senti medo e principalmente nojo. A minuciosidade narrativa da autora no primeiro capítulo já foi o suficiente para me dar um choque de realidade. Ler como o mundo reagiu a morte de Lilian e Tiago Potter é doloroso. A construção para que Voldemort seja um vilão é dolorosa, escura e vil. Peço desculpas a minha eu de 2023 e a todos os Potterhead que eu tenha eventualmente ofendido, eu não sabia o que estava falando.
Pois bem, tenho agora uma nova saga para devorar. O sentimento que eu tive ao terminar o primeiro livro, principalmente quando Alvo diz ao Harry:
(…) ter sido amado tão profundamente, mesmo que a pessoa que nos amou já tenha morrido, nos confere uma proteção eterna. Está entranhada em nossa pele.
Foi uma vontade súbita e intensa de ter conhecido Lilian e Tiago. De tê-los vivos e de conhecer uma história em que Harry ainda tivesse seus pais.
Não sei o que me aguarda nas próximas leituras, mas nunca estive tão feliz por ser Grifinória. Agora eu entendo.
