Minha cor favorita é azul: uma crônica sobre mar, céu e saudade

Imagem em diferentes tons de azul com oceano e céu

Minha cor favorita é azul. 

E, se você me perguntar o porquê, eu direi que sempre foi. Nunca houve um tempo em que não fosse. Nunca precisei pensar. Nunca tive que escolher. É quase como se eu pudesse dizer que minha cor favorita é azul de nascença.

Eu direi que azul é um sentimento. Uma forma de se expressar. De ficar blue quando a tristeza chega, de encontrar o inesperado out of the blue e de esperar como quem espera once in a blue moon por aquilo que é raro. Marcado em mim desde a primeira vez que respirei, quando o mundo que encontrei pela janela era feito de céu azul em uma manhã de quinta-feira de verão.

Eu direi que existe um grande clube na cidade, que mora dentro do meu coração e que a sua imagem resplandece. Eu te direi que eu pintei de azul tudo aquilo que amo e que, por isso, todo o meu amor é mesmo azulzinho. 

Eu direi que o tom da minha vida é um oceano inteiro. Sua vastidão me convida a entrar e pelo reflexo eu nos vejo tais quais dois iguais. É o som que me embala, me silencia e me faz respirar com calma. Continua sendo a minha cor favorita, mesmo quando as ondas são revoltas e bravias, porque eu ainda me sinto em casa, inteira, livre e infinita. 

Eu direi que é a minha cor favorita porque, na noite em que eu perdi meu avô, o céu brilhava em um cobalto intenso onde pulsava uma única estrela. É minha cor favorita porque, na tarde de outono em que carregamos o caixão da vovó, enquanto todo mundo fitava um buraco aberto sete palmos abaixo da terra, eu ergui minha cabeça e o céu me olhou de volta em um azul claro entrelaçado aos tons rosados e alaranjados. É a minha cor favorita porque, todas as vezes em que a vida se acinzentou, o azul esteve presente para me colorir de volta.

Eu te direi que o azul, antes mesmo que eu pudesse compreender, já sabia que haveria dias em que o mundo faria muito barulho para mim. Que meus sentidos precisariam descansar e que eu me reconheceria em seu espectro de cores, contínuo e infinito, como quem finalmente encontra espaço para existir.

Azul é a minha cor favorita e, se você me perguntar o porquê, eu simplesmente te direi que ele me lembra o oceano, o céu e aqueles olhos. Acho que, na verdade, quem me escolheu foi ele. Talvez o azul soubesse que eu precisava de um sonho todo azul. Essa cor não sai de mim. E, se for assim, todos os dias eu continuo a te escolher, azul. 

Raquel Martins

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